CORONAVIRUS: POSSO SER OBRIGADO A FICAR EM CASA?

Por bem ou pela lei qualquer cidadão poderá ser obrigado a se recolher em hipóteses de calamidade pública mediante a propagação de doença contagiosa

 

Em 2004, um forte tremor de terra causou tsunamis na região Asiática. Ondas gigantescas devastaram zonas costeiras em 11 países. Enquanto isso, à distância, o resto do mundo assistia a milhares de mortes e destruição em massa. Na prática, não havia muito o que ser feito. Era a natureza agindo de forma implacável e assustadora.

Agora, 16 anos mais tarde, o mundo presencia os efeitos de outra onda: o coronavírus. Dessa vez, o fenômeno não é tão ruidoso quanto o tsunami, vez que, num primeiro momento, invisível a olho nu. Todavia, o que alarma é a capacidade silenciosa de o vírus transpor fronteiras, multiplicar-se exponencialmente e, não raro, matar.

Hoje, diferentemente, há muito o que ser feito sob a ótica da mitigação de uma potencial catástrofe. E há sérias providências em curso… Ao longo das últimas semanas, dezenas de países fecharam suas fronteiras, impuseram o isolamento e quarentena aos cidadãos. Tudo isso, visando prevenir e reprimir a disseminação do coronavírus. Na mesma esteira, o Brasil adotou medidas salutares, tais como a suspensão de aulas, o cancelamento e proibição de eventos com aglomeração de pessoas.

Pois bem. Para que estas e outras cautelas sejam cumpridas, importante lembrar que o Direito Penal é ferramenta de prevenção geral. No caso concreto, o artigo 268 do Código Penal estipula a detenção de um mês a um ano e multa para aquele que “infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa.”.

É bem verdade que este crime é desconhecido do grande público, embora previsto no Código Penal há quase 80 anos. Não obstante, em reforço à norma que visa resguardar a saúde pública, é de extrema importância que a população cumpra as determinações governamentais de maneira consciente, pareçam elas exageradas ou não; afinal, como bem pontuou Winston Churchill, “É inútil dizer ‘estamos a fazer o possível’. Precisamos fazer o que é necessário.”[1]. Do contrário, caso não seja enfrentado à altura, o novo “tsunami” será ainda mais devastador do que aquele ocorrido no sudeste Asiático.

 

ANDRÉ  DAMIANI

JOÃO PAULO MAZZIEIRO


[1] CHURCHILL, W., RHODES, R., Winston S. Churchill: his complete speeches, 1897-1963 – Volume 1, Chelsea House Publishers, 1974 – tradução livre.

2020-03-17T17:12:17-03:00